Na contramão da tendência das cidades, moradores resgatam o espaço público como lugar de encontro e diversão

Em 2008, Alice completaria 4 anos e queria comemorar a data na praça perto da sua casa. Como a François Belanger, em Pinheiros, São Paulo, estava abandonada e deteriorada, a mãe Cecília Lotufo teve uma ideia: em vez de presentes para sua filha, pediria aos amigos um parquinho novo para o espaço. O desejo foi realizado graças à mobilização de amigos, parentes, vizinhos, empresas locais e a subprefeitura.
A partir dessa experiência, nasceu o Movimento Boa Praça (MBP), iniciativa de um grupo de moradores da zona oeste de São Paulo que, por meio da ocupação do espaço público, zela por três praças da região: Amadeu Decomi, na Lapa, Paulo Schiesare, em Perdizes e François Belager, em Pinheiros.
A lógica é simples e quem explica é o integrante do MBP Dionízio Bueno: “se você não ocupa o espaço público, ele fica subutilizado, deserto, e isso contribui para que ele fique cada vez mais vazio e deteriorado.”
A ruptura deve se focar na valorização da cultura de uso, em oposição à logica de consumo. “Na lógica de consumo, quanto mais eu uso, mais o produto se deteriora, e a ideia é que isso aconteça mesmo para que outro produto seja comprado”, explica Dionízio. O que esquecemos muitas vezes é que essa não é única lógica possível. Quanto mais usamos o espaço público, por exemplo, melhor ele fica. “Não adianta reformar o espaço se isso não for associado à cultura do uso, senão ele se degrada novamente”, ressalta.
E é isso que o MBP faz. Eles se reúnem semanalmente para discutir como podem melhorar as praças e em todo último domingo do mês, o movimento organiza um piquenique comunitário aberto a todos, com direito a mesa comunitária – pra onde todos levam comidas ou bebidas de preferência não industrializadas), biblioteca itinerante, música.. Outras atividades paralelas são trazidas ao evento, como oficinas para conserto de bicicletas, capoeira adaptada à terceira idade, aulas de ioga… Para a próxima, os moradores estão sendo incentivados a trazer objetos para a feira de trocas.
Já foram 30 piqueniques, e o segredo para o sucesso é a comunidade. “As pessoas envolvidas no projeto valorizam o viver coletivamente, e o lugar natural para essa convivência é o espeço público”, orgulha-se Dionízio.
Apesar de terem a iniciativa de melhorar com as próprias mãos o espaço em que vivem, um dos princípios do MBP é a certeza de que atribuições como a conservação e limpeza da praça são do poder público. “A gente não quer substituir isso”, afirma Dionízio, “nós queremos nos articular com eles”. A adoção de praças por empresas que se responsabilizam por sua conservação também não é vista com bons olhos pelo movimento, pois além de transformar o espaço público em espaço publicitário, acaba desincumbindo a prefeitura de uma tarefa que é dela.
O movimento é a prova de que, dá sim, para transformar a realidade em que vivemos, só é preciso encontrar as pessoas certas que acreditam no mesmo ideal que você.
No próximo domingo, dia 26, o piquenique comunitário acontece na Praça François Belanger. Fica o convite!

Sonho: Ver iniciativas semelhantes surgindo nas cidades para tornar os espaços públicos mais vivos e a convivência mais humana.